sábado, 19 de dezembro de 2009

Meu coração

Ontem meu coração era uma virgem inocente
que deflorada e desprezada por seu amante
emputeceu

Hoje é uma puta arregaçada
e por gozarem e gozarem em sua alma
entristeceu

Mas amanhã, coração, você será minha cafetina
pois no teu vaivém o amor amanhecerá putaria
e se fodida por amor, por amor, fodida
fodeu

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

PRDQ04-Os Impostos Que a Sorte Cobra-ParteII

Os caminhões se multiplicaram por brotamento de acordo com raio olfativo da carne tostando no restaurante "Grande Parada". Somavam-se novas opções táticas, mas enquanto lá dentro elas descarnavam no buffet o lombo grelhado, o melhor a fazer com o meu lombo era descansá-lo. E trocar idéia com Oswaldo e Orlando, um caminhoneiro aposentado e outro vendedor de cd's pirata. Na falta de um playstation, futebol e dinheiro, fizemos um pequeno bolão de desvalidos: quem acertasse o motorista que me daria carona ganharia a admiração metafísica dos demais. O problema é que nenhum de nós possuía genes de Nostradamus e assim nossa aposta se queimou numa seqüência interminável de fracassos.

Os mais apressados começavam a deixar o restaurante e eu os aguardava como um serial killer digerindo futuras vitimas. A dramaturgia da carona só existe flertando com a improvisação, é preciso conquistar o publico unitário num balé balanceado de espontaneidade e discurso agendado. Nosso bolão não conhecia vencedores, e como notoriamente eu era o grande perdedor da jogatina travei um duelo interno de paciência, um jogo de riscos menores e seguidos desapontamentos. O fluxo no restaurante seguia aumentando, e minha sorte os analisava com lentes de grau através de uma mira de sniper.

Então, de repente. "Ta querendo carona, gente boa? Anda logo, vamos nessa", e assim me tornei o Gente Boa, membro temporário da dupla gremista Pingo & Alexandre, Alexandre & Pingo.
Acenei para que esperasse eu pegar a mochila e caminhei até Oswaldo e Orlando, "todos aceitam o empate?", sugeri jogando meu fardo sobre a coxa direita para enlaçar o ombro.
"Por mim tudo bem", gargalhou Oswaldo mostrando a gengiva e uma meia dúzia de dentes, “esse trem é maior que tu rapaz”, disse apontando para meu fardo.
"De onde surgiu esse homem?".
"Eu tinha pedido carona pra ele há uma hora atrás, estavam indo pra São Paulo mas pelo jeito mudaram de idéia", deixei para trás as horas de apostas para subir na Scania 96 de Alexandre.

Cabine alta, PX(rádio) chiando e nada de encosto no banco do carona, o jeito foi posicionar a mochila na horizontal e usar ela como escoro durante a viagem.

"Vocês vão até Porto Alegre? É sério?", a sorte entrava em cena, 364 quilômetros dela, havia ficado na espreita por mais de duas horas analisando onde a tarifa atingiria mais fundo, são impostos impiedosos, pagáveis somente a base de empréstimo, e com eles os juros, os juros do azar. A matemática macabra e exponencial da carona.
"Tu vai até onde?".
"Porto Alegre mesmo, é que não esperava conseguir uma carona direto", mudaram de rumo por uma negociação cancelada pela empresa, a nova ordem era retornar à central. Bom pra eles, bom pra mim.

Moreno, gordinho que esconde uma apurada sensibilidade atrás da voz rouca, 10 anos de boléia em 31 de existência, Alexandre é um dos poucos estranhos que conheci com quem é possível compartilhar o silêncio sem constrangimento algum. Na psicologia caroneira é preciso treinar a audição, estar inteiro para desabafos e pronto para respostas inofensivas com doses controladas de sarcasmo, se este for um ingrediente aconselhável. E é neste ponto que entra o tato. Você transmuta-se num amigo temporário, terapeuta mudo que quilômetros adiante retorna ao estado original de completo desconhecido. A boléia passa a ser um confessionário, e o carona o padre sem o direito de punição. Mas esqueça todo esse contrato quando o motorista em questão é Alexandre, não precisávamos forçar o papo, ele surgia espontâneo sempre que algum tinha algo a dizer, o que era raro, simples assim. Na maior parte do tempo riamos das palhaçadas soltadas pelo PX por Pingo, um membro honorário do clã "Tiozão Jovem" na linha cavanhaque de malandro com óculos de surfista e pança de chope. Só faltou o peito peludo.

"Chegando em casa preciso cravar na morena", soltou Pingo.
"De quem tu ta falando?", perguntou Alexandre.
"Daquelas duas que passaram”.
“ De quanto?”.
“Uma de 20 e outra de 25, mas barbaridade, guri, somando não da 10 pelas duas", Pingo só não gostava mais de caminhão porque era tarado por mulher, e possuía um julgamento impressionantemente flexível nos quesitos silueta, curvas, beleza e rebolado.
"E a tua?".
"A minha morena FreeWilly, preciso cravar nela quando chegar", uma doçura falando de sua esposa grávida.

Cortávamos Laguna, a leste as baixas dunas formando um tobogã rumo ao mar, a oeste a Lagoa, imensa, imensa, um pequeno oceano distante do mar atravessado pela 101. Na beira os pescadores remando botes em pé ao contorno das iscas de camarão, até terminar num banhado de plantações de arroz.

E então começou: "Segura que ta falhando, segura que ta falhando", o começo da alta tributação da sorte.
"Estica, estica!!!", gritava Alexandre já encostando a Scania. "Qual o trato aí?".
"To sangrando a bicha", o Mercedes 94 de Pingo era um carma que carregaríamos em toneladas durante toda a viagem, e o drama começaria ali. "Simbora, simbora que não arriou".

Mas 10 quilômetros adiante arriaria, na pista em obras de revitalização em frente à entrada de Moinho Bacana. Alexandre saltou e juntos inverteram a borracha, limparam o tubo e apertaram a rebimboca doando ao Rapozão de Pingo uma sobrevida indefinida entre metros ou centenas de quilômetros. Tudo dependia da maldita sorte. E ela não estava de bom humor. Pingo e eu fumamos um cigarro para comemorar quando o motor voltou a roncar. Cedo demais, 15 quilômetros depois, já em Tubarão, a parafuseta enroscou novamente. São os impostos que a sorte cobra... e só nos resta parcelar...

"Estica, estica pra espichar", comandava Alexandre enquanto eu rezava para aquilo não fazer sentido somente pra mim.
"To espichando, to espichando".
"Espicha que emparelha, espicha espicha".
"To espichando, to espichando".
"Sangra sangra sangra", repetia no PX.
"Toca aí que alinhou", e assim Alexandre ia ensinando os atalhos para o companheiro, na boléia há apenas seis meses.

Pingo sangrou o bicho ainda em movimento e seguimos em frente, para parar de novo no retorno da 101 para Morro Bom, cravando a embreagem e largando o peso até o Posto Planalto. Enfiaram o alicate e o Rapozão voltou a esguichar sangue amarelado. Tocamos para Içaras onde a empresa era conveniada, hora de abastecer óleo e diesel para então grudar o acelerador no fundo, 70 por hora, duas flechas de 2400 metros somando horas e horas de atraso.

Mas logo depois, "Empinhou de novo, segura!".
"Emparelha, estica isso aí", funcionou.
"É só encher a pança do bicho que ele pára de reinar", e depois de sete horas e apenas 176 quilômetros de estrada o Rapozão acalmou, não havia tempo a perder. São os impostos que a sorte cobra, e os juros seriam debitados em breve.
Rodávamos pelo sul de Santa Catarina, a escuridão concorria com os faróis em curvas leves. Uma direção monótona, até que um Volvo azulado apontou pela esquerda no final da curva raspando o retrovisor da Scania. Alexandre cortou bruscamente a pista para a direita: "OOO PUTA QUE O PARIU". Agora o Volvo seguia embalado pra cima de Pingo. Alexandre tomou o PX e avisou: "Não diminui e joga pra direita devagar que tem um louco atrás de tu". Tarde demais, o Volvo rasgou a faixa ao lado do Rapozão tomando meia pista e obrigando Pingo a comer acostamento exatamente em baixo de um viaduto.

Buzinas, buzinas, putaquepariu, buzinas, buzinas, filhadaputa, buzinas, vátefude, bíííí-bíííí, fooooooooommmm, vagabundoaloprado e mais buzinas, e Pingo no PX: "Depois ta de cu pra cima e a gente passando devagar do lado, puto do caralho".
"Positivo", e acalmado.

Menos de 50 quilômetros adiante passamos lentamente pelo mesmo Volvo, capotado, "de cu pra cima o bagual", parece que passou reto na curva e rodou barranco abaixo. Pingo sim tinha genes de Nostradamus.

Depois do Volvo o caminho voltou ao mesmo marasmo, todos acima de 75 por hora nos ultrapassavam, e nós no mesmo ritmo cadenciado. No silêncio escurecido eu matutava: após mirar certeira na minha primeira carona direta, sem aparentes atrasos de baldiação, após eu ter caído inocente nesse blefe da sorte e de ter aceitado seus altos impostos, a sorte agora parecia se divertir com meu pagamento parcelado. O problema é que quanto maior a parcela, maiores os juros embutidos nela, e a vida não costuma abrir mega-promoções de juro zero. A vida não costuma abrir nada, só fechar.

Às 21 horas concordamos em uníssono que era uma boa hora de parar, esticar as costas, tomar um café. Pingo e Alexandre aproveitariam o ensejo para arrancar os fungos e bactérias do corpo à sabonetadas, tudo em consideração a suas esposas. Descobri uma sala onde havia uma térmica com café fresco, entrei sorrateiro e a surrupiei. Quatro copos de cafeína e dois sabonetes depois estávamos os três choramingando ao lado do moribundo Rapozão. Não teve massagem cardíaca que reanimasse aquele Mercedes: trocamos as baterias, chave de fenda direto no motor de arranque, amarramos a Scania e tentamos no tranco. Mas nada, nem sinal, era o fim. A ordem da empresa foi clara: eles deveriam passar a noite no Rodorede Ipiranga, a 100 quilômetros de Porto Alegre, e na manhã seguinte procurar um eletricista. Ou seja, dez horas depois de Palhoça, os juros começaram a ser debitados. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe.

O problema é que minha sorte as avessas tinha um árduo competidor. Alexandre não era daqueles que deixariam um quase-desconhecido completamente sem rumo e sem teto. Pagou-me um lanche, acelerou a Scania por mais alguns quilômetros até o próximo posto em direção a capital gaudéria e passou a fazer uma campanha publicitária no melhor estilo marketing de guerrilha para descolar uma carona e cumprir o prometido quando aceitou me levar.

Anderson topou, conhecia Alexandre de outras rodovias e resolveu ajudar. Ele estalava os olhos de sono, também precisava de um papo se quisesse chegar inteiro no destino. Subi no Mercedes 95 e vi Alexandre tomando o primeiro retorno. Era hora de recomeçar o mesmo preâmbulo de sempre: Anderson, 38 anos, caminhoneiro há dois, tenista há um, salta de asa delta há dez, vende carros, é dono de uma loja de aluguel de vestidos de noiva, e agora começou a estudar a bolsa de valores para investir em pequenas empresas estrangeiras que estão se instalando no interior paulista. Chapeuzinho de cowboy e shorts de futebol, escuta Bon Jovi, Bananaramas, James Brown, A-há e Billy Ocean. Um sujeito policromático que cochilava no volante com o pé em cima do painel e mesmo assim segurava o Mercedes retinho na faixa do meio da Freeway. Pagaria uma caixa de cerveja pra assistir “Curtindo a vida adoidado” no Cinema em Casa com esse cara, só pra me decepcionar. Ele não falava muito, e quando falava era para dissecar uma nova teoria econômica que poderia ajudá-lo na bolsa, ou para contar sobre horas que passa voando, fazendo rodopios para testar a segurança do equipamento: “já tentei quebrar a asa delta várias vezes no ar, fazendo espiral até vomitar de tonto. Nunca consegui”, ou muita incompetência ou muita sorte.
Chegaríamos em Porto Alegre depois da uma da madrugada e eu não tinha noticias de Raphael, meu contato em Canoas, desde as 16 horas.

“Você vai até onde Anderson?”.
“To com uma carga de vergalhão, vou parar na Gerdau e dormir lá”.
“Poxa, tem lugar lá? Não consigo falar com meu camarada de Canoas, tenho que descolar um canto pra esticar as pernas”.
“Olha, não sei, eu durmo no caminhão. Eu sei que lá tem uma sala de espera, se quiser tentar...”, eu não queria, mas precisava.

A sala na verdade é na verdade um banheiro fedorento cheio de cadeiras e moscas, muitas moscas, onde o nitrogênio compete com os pernilongos em porcentagem no ar. Sem chance. Na entrada do parque de caminhões da Gerdau havia um gramado e algumas árvores, seria ali mesmo. Encostei a mochila num tronco e saquei a barraca no momento que o relógio marcou duas da manhã. Quando já me preparava para entrar, um segurança se aproxima lentamente com uma lanterna nas mãos, passa o foco pela barraca, ilumina meus olhos e não pronuncia uma palavra. Já sem um pingo de paciência na reserva, faço um sinal de positivo tentando uma breve comunicação, ele observa uns poucos segundos e retribui. Meu ar de cansaço salvou a noite.
Impostos pagos, e com juros. Futuro aguardando tributação.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Visitantes

Na noite do dia 16 de dezembro rolou, na Livraria da Esquina, um show do caralho de Rafael Castro. Esse menino tem uma verve tão verborrágica que assusta com seus oito discos. Oito discos do caralho, mas Aquele Embalo, Amor Amor Amor e Raiz me fisgaram como minhoca mole.

Mas o Rafael vai receber um post decente logo logo, ele merece uma atenção seminal e sem exercício de síntese, como a frenética de sua discografia. Este breve texto vai para referenciar e pagar um pau de motumbo com Levitra para a banda que tocou na seqüência, Visitantes.

Já tinha ouvido falar dos caras por um amigo, o Guilherme, ex-baxista da Monaural, que estava na Livraria na quarta a noite. Mas o show é foda, e melhor que o show é o som dos rapazes. Numa batida puta variada, primeiro veio um baixo esquizofrêncio, surtado, se remexendo, destacando; então umas guitarras tropicais, swingadas, psicodélicas; a dramaturgia chega no gogó, no vocal.



quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

PRDQ04-Os Impostos Que a Sorte Cobra-ParteI

...EXTORCIVOS! Põe na conta, débito automático, limite-negativo, um estouro, uma embriaguez de (des)crédito, e então vem os juros, sobre os juros, juros, ABUSIVOS, os juros que o azar cobra, com juros. R$ 2.50 até o TICEN + um pulo até o Terminal Velho + R$2.50minutos até o trevo de Palhoça = chuviscava mas o sol fervia as nuvens e nos tímpanos Charly Garcia e Nito Mestre davam as boas vindas a Cassandra.

Pensei em subir o polegar na entrada para 101 mas um posto logo adiante me fez repensar a estratégia. Era hora de dar uma de Vo Nguyen Giap e testar táticas diferentes. Até então meu estratagema único foi estender o dedo ao lado da rodovia e atentar para o giro do motor, já passava da hora de testar o plano A dos mochileiros: “Posto Esso Grande Parada”, 12 caminhões, 8 carros e uma central de fretes. Comprei um maço de cigarros e acendi o primeiro deles ainda dentro do restaurante, eu era novamente um amador e precisava analisar o terreno pra mexer as peças. Afinal, mudar a tática tem seus riscos.

“Se quiser carona o melhor lugar é na saída”, aconselhou um senhor de rala barba grisalha e pelos saltando pela gola da camisa aberta.
“É justo o que preciso”.
“Tá indo pra onde?”.
“Porto Alegre, mas acho difícil chegar até lá ainda hoje, já são 15 pras 11h e raramente descolo uma carona única e exclusiva até o destino. Pra falar a verdade isso ainda não aconteceu”.
“Se fosse há 30 anos atrás eu te ajudava, sempre fazia esse trecho no dedo”.
“E agora o senhor é caminhoneiro?”.
“Não, faço entregas aqui na região de Palhoça”.
“Fuma?”, ofereci um cigarro reparando em seus dedos um tanto amarelados.
“Não, não, não faz isso rapaz, eu parei, não, não, to tentando parar, já faz alguns anos”.
“Bom, se souber de alguém”, acendi outro cigarro e estiquei a pegada segurando a fumaça sob pressão no esôfago, “que estiver descendo me dá um toque”, soltei a bruma de alcatrão em rodelas de nicotina.
“Podexá”, mirou enciumado, “mas me vê um cigarro aí vai”, pediu aliviado.
“Tem certeza? Isso dá câncer, reumatismo, ataca a fimose”, olhei fundo, “você não quer isso, a gente fica broxa por conta dessa merda, e com mau hálito”.
“Só um”.
“Tudo bem, eu te entendo”, estendi o careto.

Havia três caminhões com placas de Porto Alegre, mas todos rastreados e de grandes companhias transportadoras, uma raça conhecida e nada admirada por mochileiros. Eu imaginava a resposta, e ela veio das três direções: “Até te levava, mas a empresa não deixa, se me pegarem com caroneiro é justa causa na hora”, e apontavam para o adesivo colado à porta: “Proibido Carona”.
Por tentativa e erro topei com Pingo e Alexandre, dupla que viaja em conjunto levando maquinário pesado em cavalos de mais de 2400 metros de comprimento. “A gente tá indo pra São Paulo pegar carga, estamos vazios, só vamos esperar a ligação da empresa pra confirmar”, fiquei com a promessa de que me avisariam caso soubessem de algum colega rumando pro sul.

O fluxo de veículos crescia junto à circunferência do ponteiro, ainda sinalizando o noroeste, e não me restava outra opção que relaxar os ombros. Do estacionamento do restaurante eu desenhava com as retinas o contorno distante dos morros de Florianópolis, cidade bacana que peca por excesso de carisma, capital com ares provincianos bastante conhecidos, botecos que fecham a meia noite e restaurantes que não abrem no domingo, problemas pra comprar cigarros após as 23 horas, micromegalópode, ônibus caro e manezinhos da ilha, entre os indies cosmopolitas de Curitiba e os gaudérios de Porto Alegre, um punhado de bicho-grilo. E em Saco dos Limões a casa do Pedro. Era tudo que lembrava dos quatro dias que passei ali, colocando as anotações em dia, bebendo cerveja e revendo velhos amigos.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Macaco Bong



No último final de semana rolou o “Cena Musical Independente” que, diferente da nomenclatura, tinha seu charme. Os shows rolaram no Memorial da América Latina, em São Paulo, e contaram com Garotas Suecas, Ultraje a Rigor, Júpiter Maçã, Rafael Castro, Macaco Bong etc etc etc.

Eu fiz realmente questão de ver Macaco Bong, o Power Trio de Cuiabá com aquela pegada instrumental um tanto pesada. E os caras não decepcionaram, apesar de não ser lá muito performático, o show é intenso. Além do mais, “Artista igual pedreiro” é um álbum visceral, de verdade. Ele já está por aí há tempos e todo mundo agora aguarda o próximo trabalho. Então, este post vai pra quem ainda não escutou as distorções seminais destes moços, e praqueles que estão afim de repetir e repetir mais uma vez “Bananas For You All”.




domingo, 6 de dezembro de 2009

As Lágrimas de Antes

Olha só, coração, como escorre do meu peito
uma lágrima sem jeito de rolar por teu amor
E nosso tempo
carregado e desatento
me diz desassossegos
e não temos mais direito de voltar
Pelo atalho deste afeto
que se umedece
incendeio
com a lágrima ardendo
e assim não olho atrás

E descanso minhas pálpebras
no ombro de um amigo
embebedados pelo vinho
coração, cerveja e bar
E na esquina logo em frente
uma moça se entristece
nossa dor lá dentro se parece
e eu já nem sei quem bebe mais
Pois tropeço em suas pernas
nego, choro, desamparos
moça dói, antes demais

Mas agora, meu amor, como tudo isso é vago
aquela cena, aquele trago
todo aquele despedaço
que a moça juntou em mim
E partiu na tarde cinza
uma garoa assim chovia
uma garota em mim partia
disritmia e solidão

E o meu e o seu coração

não bateram como antes
velhos amantes agora tristes
e quando o meu ainda insiste
bate, resiste, bate, desiste
reincide no mesmo desespero
de lembrar do teu cheiro
do teu hálito
caralho, me deixa em paz

sábado, 5 de dezembro de 2009

PRDQ03-A Solidariedade está inflacionada-Parte II

“Minha filha foi mãe solteira, sabe Junior, aos 15 anos, foi um tempo difícil, eu era religioso, da igreja católica, sabe Junior, eu não acreditei que aquilo pudesse acontecer, eu era religioso, não na minha casa, sabe”, ele saltava as sílabas, entortava os vocábulos e emendava as frases falando numa velocidade impressionante.
“Aham”.
“Foi aí que larguei a igreja, sabe, larguei religião, se você não consegue ajeitar as coisas nem dentro de casa, entende Junior, como que eu ia fazer fora. Tinha um religioso perto de casa, um amigo nosso, só que crente, ele tem um filho que caiu nas drogas, sabe, tenho um primo que estava no álcool também, mas teve um filho e se endireitou na vida, hoje é da maior confiança, sabe Junior, e o filho desse religioso não consegue sair, e ele fica pregando, tentando me converter, sabe, eu falo pra ele ‘não adianta, eu não acredito’, mas ele fala que eu tenho que confiar em Deus, sabe Junior. Junior não é que eu não confie em Deus, eu confio, não sei se você entende, eu confio mas veja meu amigo religioso, fica pregando por aí, fora de casa, mas dentro o filho nas drogas”.
“Entendo, entendo”.
“Eu confio em Deus, só não tenho religião”, e assim foram entrelaçando-se as histórias de “Seu Antonio”, todas girando sobre sua apostasia religiosa após a gravidez indesejada da filha.

A Van encostou no primeiro posto da saída de Porto Belo, direção Tijucas. “Seu Antonio” precisava colocar óleo e achou que aquele era o melhor ponto pra eu descer.

“Eu sempre paro nesse posto, conheço os frentistas, vou pedir pra eles te ajudarem a achar uma carona pra Florianópolis”, enquanto eu retirava a mochila da Van, “Seu Antonio” conversava com três rapazes. “Eles vão te dar uma força, se aparecer alguém pra lá te avisam. Sabe Junior, foi bom falar contigo”.
“Foi bom conversar com o senhor também, e ainda me livrou de Balneário”, sorri.

“Seu Antonio” partiu acenando, respondi com um “obrigado” e me sentei em frente ao café. Maycol logo veio me fazer companhia, loiro de sorriso fácil e gargalhada besta, de uma inocência inebriante, era um dos frentistas no Posto do Dinho. Passei três longas horas bolando estratégias com ele e mais dois rapazes na tentativa de amolecer o coração de algum caminhoneiro sonolento. Mas nada deu resultado.

“Tenta falar com aquele cara de azul, ali do lado das mesinhas, ele é o gerente do posto, é gente boa, talvez ele arranje um lugar pra você dormir por aqui essa noite”, aconselhou Maycol antes de subir na bicicleta e sair ao final do turno. Aceitei o conselho e consegui a promessa de teto na borracharia caso ninguém me levasse até a capital. Mas o dia havia sido regado a quase-desistências, a intermináveis esperas e caronas de última hora, talvez aquele 27 de março estivesse disposto a fechar o ciclo como começou.
E assim foi, após ouvir as mais esdrúxulas desculpas das mais indiferentes pessoas, encostou no café um Pólo branco, reluzente, 2.0. A princípio não me pareceu interessante, é raro alguém com um carro desses entender as razões de se pegar carona, mas não custava tentar. Segui o motorista até o café e na primeira bobeada investi, apostando num tom menos dramático entreguei meu cartão:

“Tudo bom? Desculpa incomodar o senhor, mas eu to precisando de uma carona pra Florianópolis e vi que sua placa é de lá, não teria como me levar?”.
Ele tomou o cartão entre os dedos percorrendo rapidamente com os olhos meu cansaço e disse: “sem problemas, só espera eu terminar o lanche”.

Com a voz um pouco fofa e cadenciando bem as idéias, logo que voltamos a 101, aquele senhor de 54 anos desvendou o mistério: “Sou motorista do Basdesc há 31 anos, agora estou guiando para o presidente do banco”. Se fosse o presidente eu aposto minhas bolas que daria a desculpa mais estúpida de seu leque mais estúpido de estupidezes e seguiria viagem sozinho. Mas não era, quem dava as ordens ali era “Seu Carlinhos”, e foram os vários anos na frente do volante que deram a ele uma precisão e estabilidade impressionantes ao dirigir sempre com os ponteiros acima dos 100. Isso porque ele não manejava o carro oficial, esse Pólo 2.0 era usado apenas quando o Marea 4.1 descansava na revisão. Torcedor do Figueirense, soava no rádio a vitória de seu time contra o Tubarão pelo estadual. Ele contava sobre a filha mais velha, jornalista como eu, mas ainda terminando os estudos em Maringá. E também sobre a caçula de 19 que vive com ele na residência de Blumenau para cursar Engenharia Ambiental. O relógio de ouro no pulso esquerdo de “Seu Carlinhos” não dava trégua e a vigésima hora contava seus derradeiros segundos.

“Onde você vai descer, já estamos entrando em Florianópolis”.
“Então, vou ficar na casa de um amigo, ele me disse que é depois do viaduto, perto de um colégio, em Saco dos Limões”.
“Saco dos Limões é aquele bairro ali”, apontou para direita logo após a curva.
“O senhor fica onde? Porque dependendo pode me deixar no terminal e lá tento um ônibus”.
“Mas eu também moro em Saco dos Limões, liga pro teu amigo e pede pra ele uma informação, o bairro é grande mas as vezes te deixo mais perto”, e finalmente o universo resolveu conjurar a meu favor, por uma conspiração caótica de conjunções inéditas, “Seu Carlinhos” morava exatamente a uma quadra da casa de meu amigo. Eu não podia acreditar naquilo, nada de esforços descomunais para chegar num lugar, já estava com saudade de um pouco de sorte. Quem diria, todas as três horas no Posto do Dinho valeram a pena. Me despedi de “Seu Carlinhos” e minutos depois Pedro, um grande amigo de infância, me levava para tomar umas cervejas na casa de um camarada. Chegou a hora de reabastecer o galão.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

PRDQ03 - A Solidariedade está inflacionada - ParteI


32º e o sol rasgando a pele. A 101 é uma rodovia sem coração. Km 42, fodido seja. Quanto maior o volume de veículos mais fácil à carona, esse é um calculo simples, simples demais, e nada na 101 é simples demais. Havia dois pontos passíveis de jogar o dedo pro alto e fazer cara de bom menino: a saída de Joinville e o viaduto que a corta seguindo diretamente para Florianópolis. Nenhum deles funcionou, nenhum deles tinha uma porcaria de uma sombra.

Quando me despedi da família de Marly, logo após o almoço, imaginei que chegaria na capital catarinense antes das 18 horas, com sorte numa só carona. Agora estava há duas horas debaixo de um calor truculento e ao lado de uma rodovia impiedosa assando em fogo alto e rajadas de bafo quente. Resolvi caminhar alguns metros e comprar uma água gelada num restaurante próximo. A garçonete sugeriu que eu seguisse mais meio quilômetro ao sul e tentasse a sorte na última saída da cidade. Nada mal, os carros contornavam lentamente e assim era possível um contato olho no olho. Uns viram a cara, outros exercitam a indiferença, mas a maioria simplesmente gira o dedo indicando que vai tomar o retorno no próximo trevo. O contrato era claro e todos sabiam a verdade, era uma limpa jogatina de hipócritas: o trevo não existia e eram eles que estavam no ar condicionado.

Eu começava a contabilizar o tempo perdido, reorganizar o cronograma e traçar uma nova rota caso precisasse voltar à Joinville, exausto. Pelo viaduto vinha uma Saveiro em baixa velocidade, eu não estava posicionado, pensava na vida e escutava os conselhos de Erasmo Carlos pelo fone, mas lancei o polegar no momento que ele passava para então retomar minha aritmética estratégica. Eu ligaria para Marly às 19 horas, com isso ainda me restava uma hora de caminhada até sua casa. Então ouvi uma porta se fechando atrás de mim, era a Saveiro branca e um rapaz loiro abrindo a capota entulhada de caixas. Imaginei que estivesse conferindo a carga, mas não custava tentar.

“E aí amigo, ta indo pra onde?”, perguntei.
“Balneário, mas o carro ta cheio, não sei se cabe você”, disse já abrindo a porta do carona e mostrando quatro caixas sobre ele. “Se não fosse tua mochila rolava”, eu e meu malfadado, imprescindível e pesado fardo.
“Infelizmente não posso deixar ela por aqui, ela não vive sem mim, sabe como é?!”.
Ele riu, coçou a barba rala e tentou encontrar uma solução, “rapaz, ta difícil viu, você ta aqui faz tempo?”.
“Não, não muito, só duas horas curtindo um sol no acostamento”, tentei engolir o pessimismo e jogar com a simpatia, às vezes funciona.
“Caramba, então vamos dar um jeito de você caber aqui”, isso era exatamente o que eu queria ouvir.

Alexandre, dono de uma transportadora de alimentos, dava as ordens, mas mesmo com muita boa vontade não conseguimos alocar nenhum mísero caixote na capota. O jeito foi abrir caixa por caixa e acoplar os pacotes de cookies integral atrás do banco, dobrar o papelão que sobrou e posiciona-los entre a marcha e a trava do cinto. Quando sentei alguns cookies ruíram e os pacotes gemeram, a mochila ficou no meu colo, em diagonal do joelho até o queixo, e seguimos rumo a Balneário comprimidos como os ingredientes de um comprimido relaxante.
O motorista possuía uma combinação conhecida: barba loira, retraído, falava pouco e com acento “leitE quENtE”, eu podia apostar que era um típico curitibano polaco.

“Tu mora em Balneário?”, dei a partida.
“Moro sim, já faz um tempo”, respostas curtas, mais um indício.
“E da carona sempre?”.
“Velho, não dava, mas aí um amigo resolveu viajar até os Estados Unidos de carona, aí eu fiquei pensando melhor no assunto”.
“Caralho, até os Estados Unidos??”.
“É, mais ou menos, ele foi até um pedaço assim aí comprou uma moto, acho que antes da Colômbia, mas o pai dele tinha uma boa grana pra bancar isso tudo”.
“Báh, mas ainda assim o cara é corajoso”.
“Ele ficou um tempo por lá e depois pirou de ir pra Índia, voltou transformado, casou e vive nos Estados Unidos com a mulher”.
“Feliz?”.
“Muito”.
“Então ta valendo. Tu não é de Balneário, certo?”.
“Não não, sou de Curitiba”.
“Ahhh, eu sabia. Tava morando por lá antes de me embrenhar na estrada”.
“Você deu sorte, eu não ia ta rodando hoje, mas um caminhão da empresa quebrou e eu tive que sair de Santa Catarina pra pegar essa carga no Paraná”.

Não conversamos muito, dois paranaenses se entendem melhor no silêncio, ao menos na maioria das vezes. Ele acelerava fundo, tesão por velocidade, naquela mesma manhã, ainda em Curitiba, emprestou a moto turbinada do irmão e rasgou a 376 esticando o motor no limite. Só pra curtir a adrenalina.

“Eu sou mais uma Harley, rodando a 30 por hora numa rodovia movimentada naquela barulheira toda, maior tiozão”, balanceei.
“Ah não, eu curto rotação alta, gosto de ver o ponteiro subindo”.

Alexandre me deixou na terceira e última saída de Balneário, todas desembocando na 101, dessa maneira o fluxo seria maior e eu retornaria ao cálculo simples, simples demais: essa rodovia não tem coração, sequer um de asfalto e piche. Nela a solidariedade está endividada, inflacionada, inflacionada demais.
Ali, na beira da estrada, o tempo corre como um maratonista exausto e o sol é o relógio em espiral. Ele gira lentamente e cai por trás da serra na maior calma, a meio mastro, extinguindo milímetro por milímetro.
Logo percebi que aquele era um dia de provações, por mais que eu arriscasse vagar pelas saídas de Balneário tentando todas as alternativas possíveis, não havia método melhor que esperar. 90 quilômetros, 90 malditos quilômetros até Florianópolis, era tudo que eu queria. De longe comecei a percorrer com os olhos o sentido do ônibus municipal, talvez um camping fosse necessário para aquela noite.
Um leve entardecer já coloria com um vermelho sangue o asfalto, eu mantinha o braço direito estendido e o dedo em riste, mas o calçava com o pulso esquerdo, já não suportava o cansaço e o começo das câimbras. Pouco tempo depois um Gol cinza novinho contornou a última saída de Balneário e seguiu lento em minha direção, sem dar seta para esquerda indicando a 101. Acelerei os passos, era um senhor de barba e cabelos grisalhos, com ar jovial e aspecto sério. Ao me aproximar da janela ele balançou o indicador negativamente, contorceu os olhos e disparou cantando pneu. Suspirei de desespero, já contava mais duas horas e 10 minutos e nada, porra nenhuma. O ônibus municipal era a solução, virei às costas e rumei para o ponto mais próximo. Sem eu sequer esticar o dedo, “Seu Antonio” encostou a Van.

“Ta precisando de carona, amigo?”.
“Deu pra perceber?”, respondi balançando a mochila.
“Não sei se te ajuda, mas to indo pra Tijucas”.
“Preciso chegar em Floripa ainda hoje, onde fica Tijucas?”.
“Acho que não vou poder te ajudar, fica uns 50 quilômetros antes”.
“Ah, não tem problema, são 40 a menos pra amanhã”.

“Seu Antonio” tinha um bom coração, homem simples de fala urgente, quase desesperada, um negro que já cortou cana no norte do Paraná e agora transporta cerâmica em sua Van vermelha bastante surrada. Mas aquela carona tinha outro motivo, ele precisava desabafar, seriam 40 quilômetros de um intenso monólogo e eu estava disposto a desempenhar exemplarmente as duas partes que me cabiam no discurso: “aham” e “entendo, entendo”.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Dr. Morris E Os Vivos

Foi lançado em maio, acredito, esse liquidificador pop abrasileirado de violão de aço, teclado, guitarra, baixo e bateria. Um som bacana, autoral e suingado. Dr. Morris E Os Vivos se apresentaram pelo estado de São Paulo durante o ano, antes mesmo de lançar o disco, intitulado 5. Agora ele está aí, na página dos caras, é só chegar, baixar e curtir.

O trabalho não é homogêneo, há variações rítmicas, sensíveis e ambientadas. Mas se você der o play do começo ao fim, o disco, uma criação coletiva, tem unidade. É um dos melhores do ano, sem dúvidas. Grande parte do que soa no disco foi construído no palco, durante performances um tanto teatrais com pitadas de humor e improviso.


Baixe, ouça, curta, conheça
http://www.drmorris.com.br/


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Patinha Feio

A felicidade tem sabor de rotina
Contudo, são serviços prestados que eu não contratei
Laços escassos de uma mesma família

A árvore dava frutos porque parou de vingar
A recíproca me parece um caminho perigoso
A gaiola começou a enferrujar
Mas pode ficar tranqüilo
Até ave bem domada foge do ninho

[Plantei minha semente no infinito]
[Para ela não se ater por mim]
[Plantei minha semente no infinito]
[Para ela não crescer no impossível]

PRDQ02-O Primeiro Passo Após a Deserção-ParteII

Comprei um café e na televisão Alexandre Pato fazia seu primeiro gol pela seleção canarinho. Ninguém no boteco comemorou, mas alguns tiveram paciência de entortar os olhos e acompanhar o replay. Marly, uma prima que não via há muitos anos morava em Joinville com a família, e minutos depois de contatá-los eu estava dentro de um Golf em direção a uma visita atrasada, e egoísta.

Marly trabalha em uma confecção como operadora de máquina catraca e Zuanir, seu marido, lida com motos e zicas - conhecida por aí como bicicleta. Eles têm dois filhos, o mais velho já na oitava série e outro de apenas quatro anos. Aproveitei a estada na cidade para acompanhar Zuanir no clássico regional, Joinvile X Havaí. A Arena Joinville, com capacidade para 22 mil espectadores, foi o palco para a peleja, assistida por não mais que 10 mil torcedores da cidade. Um típico jogo em que o árbitro transforma uma partida monótona numa rinha de dinossauros. Deixava a torcida injuriada invertendo faltas e travando o jogo a cada carrinho mais intrometido. Final da partida, o time da capital enfiou 0 a 3. Restava o cansaço e as anotações, a 101 me esperava na manhã seguinte.