
"Posso agora passear incógnito, praticar ações vis e me entregar à devassidão"
“Porque pra a(s)cender na música basta um isqueiro, cara”, disse Ton antes de sorrir daquele jeito espontâneo e agudo, esticando os lábios finos rodeados pela barba rala e loira. Era a segunda vez que eu ouvia aquelas palavras. Da primeira, na sala de casa enquanto jogava Winning Eleven, ele complementou: “nossa, que frase tosca, esquece isso, cara”. Mas agora estávamos numa noite de domingo, começo de setembro e de chope double até a meia-noite no James, um bar indie no centro daquela Curitiba chuvosa e elegante como nunca naquele traje cinza demais. Conferi o relógio e resolvi pegar mais um copo, restava ainda vinte minutos de álcool em dobro enquanto Ton, Lobão, Alan e Chapolla rasgavam os amplificadores e acariciavam nossos tímpanos lá em cima do palco, num show do Nevilton, a banda fodástica do noroeste do Paraná.
Com o terceiro chope na mão, sentei ao lado esquerdo do palco junto com o Chapolla e o Régis. Chapolla é o novo baterista do Nevilton, entrou há poucas semanas depois que o Fernando saiu por falta de tempo. E foi tempo o que faltou para que Chapolla estivesse no palco naquela noite: sem ensaio não tem show, então ele resolveu viajar com os caras pra sentir o clima, a pegada, a estrada. Enquanto isso, Alan, um amigo do Ton, assumiu as baquetas estepes.
Havia uma pequena multidão naquela noite no James, todos embalando a rotina a álcool e a dignidade à ressaca, mas ninguém estava tão disposto a vomitar a vida num copo de cerveja ou num beijo sincero quanto meu grande amigo Régis: apaixonado e abandonado, triste e emputecido, tudo por uma mulher que o deixou, cara, coração em pedaços, ele bebe e bebe mais, amigo, “ela me deixou, ela não me ama mais”, então um brinde e solidariedade e outro brinde, mulheres, cara, mulheres, uma merda, cara, elas acabam com a gente, chutam nossos bagos, insensíveis, pois então à cerveja, cara, à cerveja.
Assim, antes da meia-noite estávamos todos bêbados e dispostos a nos embebedar ainda mais, porra, em nome do corporativismo da classe homem estávamos todos naquele bar pequeno e retangular de dois andares, e indie pra cacete com aquela decoração cheia de quadros pop-art, rodeado por sofás coloridos amontoados de pessoas alternativas e hypes demais para um cara como eu, ou como Régis, que só queria uma cerveja barata com muito álcool para encharcar os sonhos, e a última ponta de um beck ardendo para apagá-lo no peito e incendiar o coração. Por isso estávamos sempre com um copo de chope não mão, pelo menos até a meia noite, porque depois me vê uma long neck da Heineik, compadre, você sabe, o chope está caro e ele leva um motivo nobre para afogar no coração partido. Chegou a hora de devolver-se o orgulho estraçalhado à tamancadas para redescobrir que, um dia, em algum lugar por ali, já existiram colhões.
Então, de repente, enquanto encharcávamos nossos traumas, os solos terminaram e a musica silenciou. Ton se aproximou do microfone, na frente do palco: “gostaria de tocar uma música calminha agora”. Assim, o primeiro acorde de “Luz demais pra eu dormir” flanou das caixas de som nas beiradas do palco e todos conjugaram um mesmo verbo meio apaixonado enquanto a Gibson Les Paul Faded Cherry de Ton rangia no tom certo e suave de uma nota aguda e repetitiva. E o que mais me espantava naquela noite era que o Nevilton sequer lançou um disco ou coisa parecida, mas, sem brincadeira, pelo menos metade daquela pequena multidão tímida e retraída como Curitiba cantava e sacudia e cantava e sussurrava, veja só, morena, só queria atenção, to aqui, morena, balançando os cabelos de olhos fechados chacoalhando o álcool naquele embalo puro e leve e áspero e intenso pra cacete que flanava quando eles pulavam e distorciam e reverberavam e tocavam e tocavam fundo e eram uma das bandas mais fodas que sequer lançou um disco pra todo mundo cantar e pular e sussurrar junto, morena, daquela maneira. Mas era isso que acontecia naquele bar e naquela noite.
E foi talvez por sentir o timbre delicado, o arrepio daquelas notas e da voz aguda e um pouco adolescente de Ton que Régis virou-se para mim e disse: “Está vendo aquela menina ali?”, ela era baixa, quem sabe uns 18 anos, tinha cabelos longos e castanhos, já Régis um arrepio sutil de um naco de coragem que resvalava da música até sua espinha e fazia a boca salivar e o pau crescer latejando. Mas ela estava num vestido verde dançando em passos pares e acanhados a poucos centímetros de nós, em frente ao palco. “Então, cara, vou pegar ela, to te dizendo”, disse Régis, convicto e bêbado. Não é muito a sua, compadre, essa confiança toda nos traquejos da sedução, mas eu acredito, e é bom ser rápido, porque, porra, Nevilton ainda segue naquela canção lenta e compassada que te atravessa as entranhas, e Lobão dedilha o baixo num ritmo meio bossa, fechando os olhos nos momentos mais românticos e balançando delicadamente a cabeça com aquele cabelo curto contornado por duas entradas calvas, carregando toda aquela pequena multidão na mesma toada. E, cara, pensando bem, apesar do Régis ser um cara retraído, lírico demais para baladas rápidas, ele estava bêbado o suficiente para esquecer disso frente a um compacto de curvas femininas que lhe devolvia algumas miradas um pouco mais picantes. Além do mais, lembro que Ton me disse certo dia: “acabou a magia, cara, acabou a época, hoje robô constrói carro, acabou a magia”. Ele falava da música, desses novos tempos pós-internet, tempos em que o independente peita o comercial com a peixeira e um pouco de esperança entre os dentes e sorrisos amarelos, e eu pensava em como o underground nunca esteve tão próximo de construir seu próprio mainstream, mas nós estávamos errados, sem brincadeira, só agora as palavras de Ton realmente faziam sentido, sei lá, rebatendo em Régis e fazendo o álcool de suas artérias vibrar e expandir uma certa dignidade masculina, que acabava inchando os colhões daquele rapaz ainda tão ingenuamente romântico, caralho, cara, “a magia acabou, cara”, acabou, já era, não existem mais jogos infantis de sedução, meu bem, é só chegar e passar o saco, “a magia acabou, acabou a época”, carinho, acabou, caralho.
Cara, acho que eu estava bebendo demais, nunca fui muito forte pra essa coisas liquidas, meu lance são fumígeros, então muitas coisas se embrulhavam desse jeito na minha cabeça e só quando Ton disse “valeu, fim de show, agora vamos beber e agitar, até mais” que me dei conta que a banda silenciou a derradeira canção e o DJ apertou o play nas baladas oitentistas.Ton caminhou até o camarim, mas logo estava escorado no bar, Régis seguiu a trilha do broto de vestido e eu resolvi beber mais, para acompanhar o Ton, um cara legal, espontâneo pra caramba com aquela risada fácil, ainda mais com um copo de cerveja na mão. O cara é um frontman das antigas, daqueles que só se sentem completos lá em cima, com as cordas vibrando na garganta e na guitarra, com os acordes e versos ricocheteando sua alma quando soam distorcidos, quando ele sorri e pula e canta uma verdade ou uma mentira que pode ser minha ou sua, quem sabe, mas apenas quando ele despluga a guitarra e encerra no case mais uma noite, se equalizando e dissolvendo como o poeta de Baudelaire com um copo de cerveja no meio daquela pequena multidão, os mesmos que até alguns instantes pulavam no seu ritmo, e é só nesse momento que ele se sente ainda mais feliz que no palco, debaixo das luzes no seu púlpito artificial e particular, porque é naquele bar longo e iluminado por propagandas de bebidas caras e inalcançáveis que, como eu, muitos se aproximam e dizem com aquela sinceridade que apenas o excesso de álcool é capaz de arrancar: “velho, do caralho esse show, foda, de verdade, puta merda, puta merda, puta merda”. Então ele estica os lábios e sorri, e quanto mais os dentes vão aparecendo mais vai aparecendo também um brilho de satisfação nos olhos verdes claros. “Porra, legal cara, que bom que você gostou”, respondeu, com a respiração ainda um pouco agitada enquanto algumas gotículas de suor dançavam na testa, escorrendo até a camisa azul. Porque como ele me disse, “musico é só mais uma pessoa no meio das outras”, suando álcool demais, só mais um fodido no meio dessa foda toda, cara, por isso ele puxa até a canela a calça xadrez meio terrosa, porque ele sempre usa calças xadrez quando sorri naquelas noites mágicas, e suspira antes de se escorar e se dissolver no bar dos mesmos.
Passando ao nosso lado vejo Régis saindo do banheiro e cumprimentando a menina de vestido, ela parecia receptiva àquela conversa mole, mas rapidamente se esgueirou e caminhou para o lado oposto. Naquela noite, a única coisa que Régis queria era aquela garota, sugar um pouco de hombridade daqueles lábios cheios de saliva e desforra, porra, e eu só queria ficar bêbado depois daquele show do caralho, e estava me esforçando pra isso, ali no bar, ao lado de Ton, esperando o momento certo pra falar alguma coisa, esperando que todos e todas aquelas novas groupies, angariadas durante a uma hora e pouco de acordes, deixassem o cara fazer um solo em paz por alguns segundos.
O negócio é que ninguém levou a música tão a sério em Umuarama quanto o Nevilton, mas também a cena local nunca foi tão forte como agora.
Virei para Ton e disse: “Acho que isso é uma questão contemporânea, sei lá, a globalização atiça os regionalismos e talvez um lance legal disso tudo seja o fato das cenas locais estarem mais unidas, mais fortes por conta da internet”, minha língua teimava em engatar os verbos nos adjetivos e desprezar qualquer tipo de pontuação, e tudo parecia mais cadenciado e bonito apesar daquela constante ânsia de vômito. Ton apenas sorriu e me olhou de canto de olho, deu de ombros e seguiu escutando um outro sujeito, um novo groupie que baixara suas músicas na internet. Mas mesmo olhando nos olhos daquele cara eu sabia que Ton maquinava minhas palavras em algum canto obscuro de seu cérebro, ele levantava levemente os olhos e respondia monossilabicamente enquanto pensava: “a cena vai se fortalecer ainda mais, e não só na música, e a gente é um pouco a conseqüência de toda essa facilidade”, então o sujeito toca seu ombro e ele resolve prestar atenção cortando o pensamento sem avisar. Eu bebo mais um gole e insinuo o copo em sua direção, mas Ton me ignora novamente, tudo bem, cara, eu tenho meu copo cheio e um desejo, um desejo certeiro de me embebedar, mas ele gira as retinas na circunferência do globo e volta a refletir sobre a minha frase: “a gente deve muito a toda essa facilidade, é real, você tem razão, Junior, hoje o MSN é a rede de contatos e o site é o centro de tudo, porra, as coisas mudaram muito mesmo”. Então com um leve soco em seu ombro tiro Ton daquela catarse,“rapaz, vou dar um giro, se cuida”. Porra, e ele sequer lançou um disco.
Em volta, Régis engole litros e mais litros da saliva amarga de lúpulo da menina de vestido verde enquanto apalpa despudoradamente aquela bunda delicada. É encantador e edificante ver como um homem regride a um estado mesozóico quando redescobre que tem um pau entre as pernas. Encosto no bar e fico observando a cena, estou bêbado, cara, a noite acabou pra mim. De repente, Régis pede um minuto à menina, vai até o banheiro e vomita todos os cinco chopes e quatro long necks da noite no mictório. O pessoal em volta não gosta muito, aquele não é o melhor lugar pra se vomitar, mas o negócio é que o Régis está pouco se fodendo, ninguém ali sabe o que é beijar com raiva novos e úmidos lábios após um pé na bunda, então ele lava a boca e pede desculpas, chupa um Halls vermelho e volta para a pista esfregar a língua na língua da menina tentando calejar o coração à fricção. Pedi minha última cerveja e bebi em goles longos, bêbado, bêbado de novo, estava um pouco bêbado demais e de novo. Régis ainda beijava. E Ton seguia conversando com outro alguém que conhecera a banda no myspace e resolveu aparecer naquela noite e elogiar o puta show de horas atrás. Acho que, como o poeta de Baudelaire, todos fazíamos a coisa certa e do jeito certo.




1 comentários:
Gostei da escrita!
Noites assim devem ser registradas sempre! Parabéns!
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