segunda-feira, 24 de maio de 2010

E essa bossa de independente pariu sonhos 2.0 - Parte IV

Pense em X ou em Z, puxa! Que divertido vai ser!

“Merrmão, eu também acho que estou fazendo a coisa certa, e do jeito certo. Eu acredito nisso de disponibilizar os discos na internet chamando o pessoal pro blog, batendo no peito e administrando a própria carreira, fazendo um selo e tudo mais. Eu acredito que daqui pra frente será assim, é preciso diminuir a distância com o público”, eu tentava interromper, mas China era só desabafo. “E sem essa coisa de modéstia, eu sei que eu tenho um talento do caralho, sei que eu sou bom, me sinto um cara bom porque eu me esforço e trabalho pra caralho, e espero que tudo isso aconteça, mas eu não sei se as outras pessoas enxergam isso, é sério, essa é a grande questão. Mas eu sou otimista pra caralho. Minha mulher até reclama, diz ‘tu sonha demais’, e eu respondo ‘preciso sonhar as coisas pra elas acontecerem’, por que se o cara não sonhar como ele vai viver?! Só que eu realmente não sei se as outras pessoas pensam assim”, debaixo daquela luz que resvalava em mim e em Chiquinho, China falava e falava, e aquelas palavras tão seguras e metralhadas assim, sem compasso, pareciam surgir de alguém que só se encontra e nunca se perde. Só que ele se perde, cara, se perde de verdade, o lance é que agora ele não tem mais medo nem ressentimento da perdição, nada disso, agora ele sabe curtir e chacoalhar pra se perder e se encontrar, confiante e cansado, da mesma forma que se jogava no sofá resignado com aquela dor de cabeça e com o tédio da madrugada.

Chiquinho, o tecladista do Mombojó, havia se sentado na mesa com a gente, e carregava uma alegria esgotada naqueles olhos fundos como dois canos de uma escopeta pronta para te fuzilar. Faiscando. “Eu passei por um lance parecido com o do China”, comentou puxando o assunto para si. Era desse lance que brotava aquela alegria esgotada: Chiquinho acabava de voltar da masterização da primeira música do primeiro disco independente do Mombojó, e isso era uma espécie de regeneração para ele. O negócio é que depois do Homem-Espuma, segundo disco dos caras pela Trama, o destino enfiou o pé no peito de cada um deles. “Tudo deu errado demais, mesmo, todas as expectativas de gente que pudesse entrar com alguma grana deu errado, então não tinha outra solução”, Chiquinho entrou numa espiral depressiva e aquelas duas retinas fumegantes se tornaram revólveres de lágrimas num drama de cangaceiros desesperados.

O cenário não mostrava nenhuma gravadora, nenhuma proposta interessante, a internet engolindo o mercado, o independente numa orgia incestuosa com o underground sem que ninguém soubesse que tipo alienígena algum deles pariria. Mas chega um momento na vida de um cara, ou de uma banda, quando tudo está mudando e ninguém sabe exatamente o que fazer, que é preciso engatilhar a vida e disparar bem no coração do destino, só pra ver que merda vai dar. Então, de repente, “a gente caiu no buraco, não foi a gente que escolheu ser independente, eu estaria mentido se dissesse isso, a gente acabou caindo nessa por um monte de coisas que aconteceram. Sei lá, o Rafa morreu, aí um saiu da banda, a Trama muito doida, um mercado muito doido, e pra sair do buraco a gente teve mesmo que esticar as mãos. Então chegou uma hora que a gente acordou, se a gente fosse ficar esperando esse papo de produtor e pessoas de fora a gente não ia sair do ponto”.

Assim, Chiquinho resolveu seguir os conselhos de China, começou a conversar com as pessoas sobre como estava deprimido e o Mombojó percebeu que era sua vez de depositar o cheque assinado liberdade e anexar na carta de alforria: “porque é isso mesmo, foi-se o tempo que você esperava alguém que administrasse totalmente sua carreira, acho que acabou isso, o artista que espera por gravadora, ou até por um empresário, não vai sair do canto, hoje você tem que pensar em colaboração, nos seus brothers, mas quem guia essa porra é a gente mesmo”. Chiquinho parecia feliz naquele momento, passando a mão sobre a mesa, sentindo sua textura e relembrando a pequena epopéia que se repete no independente 2.0. de hoje: “e no final nós fizemos esse último disco num sistema bem colaborativo mesmo, todo pingado, foi gravado uma coisa aqui e outra ali e outra lá, acho que ao todo envolveu umas doze locações mais ou menos”. Chiquinho dispensou o beck que eu começara a selar na saliva e a dissecar a baforadas, seguia resgatando da memória algumas sensações novas e inebriantes: “foi massa isso ter acontecido, do caralho, mas como eu disse, isso não foi opcional, foi o que deu pra fazer”, mirou então a segunda leva de fumaça que soltei no ar, logo abaixo da única luz acesa na sala, bem em cima de nós. Recoloquei o beck entre os lábios e escutei: “agora que passou, ou melhor, que está passando, dá pra ver que foi do caralho, essa noite escutei a primeira musica mixada e masterizada e pensei ‘massa, do caralho, agora só faltam dez’”.
Chiquinho acha que vai chorar no show de estréia do disco, ele parece um cara terno, desses que sentam com um desconhecido qualquer, que ainda segura entre os dedos o beck que ele recusou há pouco e puxa uma terceira tragada, e abrem o jogo sem maiores estratégias, blefando com a sinceridade. Mas mesmo olhando fundo em seus olhos eu não conseguia invadir aqueles dois canos de escopeta e ler o calibre de sua munição. Com o China é diferente, é um sujeito que percebe as pessoas e assim se deixa perceber, sem brincadeira, ele é de uma espécie de caras que te laça a alma com um primeiro olhar e só pisca para apertar o nó e fechar a guarda. É esse tipo de coisa que faz dele um cara sensível, sensível demais. Mas de repente, vendo o cara deitado no sofá com um copo de Coca-cola na mão e aqueles olhos castanhos escancarando a alma, eu realmente não conseguia vê-lo refletido naquele mesmo frontman elétrico que eu tanto admirava nos palcos, que samba e requebra, que sua e malsoa, que balança um chapeuzinho de malandro e não uma dor impertinente na cabeça. “Acontece que quando você está lá em cima tem que se cortar”, respondeu logo que expus minha percepção, “merrmão, tem que sentir cada palavra que canta, mesmo que desafine, e quando eu subo no palco eu me corto completamente, me corto mesmo. Altos shows do Del Rey, estava cantando umas musicas que nem fui eu quem fez, e sentia aquilo vindo e eu cantando e ouvindo e vindo aquilo, e eu começo a chorar, chorar pra caralho”. Mas quando são suas as canções, compadre, quando são suas as estrofes e os acentos e as vírgulas, então o corte é mais fundo, é muito mais fundo, e a gilete é afiada no ferro oxidado daqueles malditos sentimentos frescos, curtidos na conserva imprevisível do tempo, arde mais, porra, arde demais, muito e muito além, corta lá dentro, cara, e sangra de verdade.

Mas lá no palco, durante um show qualquer, enquanto ele agarrava o microfone e desabafava seu próprio repertório, vibrando nas cordas vocais e nos verbos quando reverberam pelas caixas de som e fatiavam o seu e o meu coração, ele pensava, “caralho, já canto isso há tantos anos e ainda fico me fodendo com esses sentimentos”. Mas então chega o refrão, a rima do verso, e ele se acalma: “pois rima com as coisas que eu vivi, com as coisas que eu vivo e com as coisas que eu vejo”. E assim, entre os amplificadores e os cabos e as luzes, bem no meio de um agudo, ele se dá conta: “cara, esse é um sentimento lindo, quando me corto é lindo, porque eu sou completamente diferente fora do palco, mas lá em cima, merrmão, ainda que seja a mesma pessoa, sou eu nu, completamente nu e largado ali, e as facas vindo e cortando e cortando e eu cantando e me fudendo mais uma vez com aquele mesmo sentimento, e aquilo, merrmão, aquilo é verdadeiro”.

Eu sabia que China estava sendo sincero quando me contava todas aquelas coisas deitado no sofá com o copo vazio e entregue a uma dor de cabeça persistente. Não que minhas retinas sejam qualquer tipo barato de escâner da alma ou coisa parecida, mas como outras milhares de pessoas eu estive no Studio SP no último show do ano do Del Rey, a banda que ele e o pessoal do Mombojó formaram para tocar as musicas do Rei. E cara, eu vi as facas vindo e rasgando e China se deixando cortar enquanto flertava com as mulheres histéricas na frente do palco. “Acontece que eu não consigo cantar Roberto Carlos e não piscar pras meninas, não dá, merrmão, não seria verdadeiro. Lá no palco é quase uma dramaturgia, eu preciso sentir o que a música quer que eu sinta, e por isso eu me corto. E cantando coisas como Negro Gato não dá pra não dar uma olhadinha safada pras meninas, a musica pede, elas pedem, Roberto pede”, mas naquela sexta-feira, em cima do palco do Studio, durante a derradeira apresentação de 2009, ele remetia as piscadelas mais cafajestes para os brotos mais histéricos enquanto segurava a gola da camisa para depois esticá-la novamente como quem tenta arrancar dos versos um pouco de sinceridade.

E ele arrancava.

Eu estava sentado no lado direito colado ao palco, e a casa estava cheia de mulheres histéricas digladiando-se por um naco de atenção de China, que agora estava pequeno, fazendo movimentos curtos no centro do palco, diminuindo a cada nova estrofe à medida que o amor de Roberto Carlos, tão forte e distante que até as cartas já não adiantam mais, vai se tornando o protagonista. Então, de repente, ele se vira para uma loira de olhos embriagados e coxas grossas dançando num vestido branco e curto bem ao meu lado, e sussurra piscando o olho esquerdo: “eu te amo, eu te amo, ahh.. eu amo”. A loira tenta incontidamente e em vão subir no palco para agarrar o cara com furor e beijá-lo na frente de todas aquelas vadias. Mas China estava impassível diminuindo ainda mais e sequer notou o desesperado ato de paixão etílica da loira. Acontece que o cara criou uma casca que o protege destes delírios, de toda essa liturgia psicótica em que rezam fãs angustiados por um novo deus materialista e artistas megalomaníacos. Lembro que ele me disse depois do show: “eu sei que aquela loira jamais me daria bola fora daqui, na rua ela passaria por mim e me esnobaria, tenho consciência disso”. Mas não se trata apenas da loira de coxas grossas, a casca que China criou é algo maior que isso, e quanto mais eu admirava aquele cara rebolando meio samba meio salsa meio mangue e cantando os galanteios do Rei naquele palco imenso e cinza, mais eu entendia como aquela casca endureceu.

China começou cedo na música e quando era apenas um adolescente se viu caminhando no mesmo corredor de Britney Spears, e tomando o elevador com Steve Harris e Jimmy Page durante o Rock in Rio de 2001. China tocava com o Sheik Tosado e a responsabilidade, a pressão e a velocidade com que tudo acontecia fritaram o cérebro do cara. China começou a ter breves e constantes aceleramentos cardíacos, um medo irrefletido cada vez mais intenso e freqüente e a desmaiar quando simplesmente abria os olhos: “ninguém sabia o que era, e passei um ano me fudendo muito sem ninguém saber o que eu tinha”. Cada vez mais ele se ilhava, abandonou o Sheik, mudou-se para o Rio de Janeiro cursar jornalismo, mas nada deu certo. A única solução era entupir as sinapses de Rivotril: “minha sensação quando acordava era que tinha sido espancado, eu abria os olhos e pensava ‘caralho, vamos lá, de volta pra vida, pooorra’. Mas o primeiro que eu tomei foi o Prozac e, porra, a sensação é que a vida passa na sua frente e você nem pisca. Merrmão, tomei muita coisa, vários remédios, mas nunca fiquei internado”. As coisas só se acalmaram quando um psiquiatra, que era também médico legista adepto a experiências exponenciais com substâncias psicoativas, diagnosticou-o com síndrome do pânico: “era massa que em várias consultas a gente tinha que parar, porque entrava alguém com uma certidão de óbito pra ele assinar”. O médico prescreveu alguns medicamentos e muitos conselhos, muita conversa. A necessidade de tomar os remédios não era o que mais emputecia China, “o que me deixava realmente puto era que, na análise, eu me sentia pagando pra ter um amigo”. Mas o médico era um sujeito arguto, e respondeu: “pra começar eu não sou seu amigo, e sobre os medicamentos, quando você sentir que está melhor, pare de tomar”. E assim aconteceu, certo dia China abandonou os antidepressivos e nunca mais apareceu no consultório, sentiu que havia finalizado a troca de pele, e a nova superfície que o embalava era calejada, era uma casca robusta, a sua casca, “a casca que eu criei conversando, me abrindo com meus amigos e seguindo os conselhos daquele médico”.

E aquela casca reluzia verde, amarelo e vermelho quando as luzes acendiam no ritmo dos acordes, e China seguia impassível dançando e remexendo de um lado pro outro do palco, naquele último show do Dey Rey. China, o singular do Mombojó. Mombojó o coletivo do China. Enquanto isso eu continuava sentado, no mesmo lado direito do palco, sem sequer uma maldita cerveja, sem um puto centavo no bolso, mas batucando os dedos na perna e cantando Na Estrada de Santos o mais alto que conseguia.

E de repente, o “muito obrigado, boa noite” e como o poeta de Baudelaire em tempos pós-internet, China dispara rápida e cirurgicamente pela tangente direita do palco, buscando chegar ao camarim pelo único caminho possível, passando bem no meio da multidão. E é então que o microfone, num movimento brusco, escorrega de sua mão e despenca ao lado do público. China se enfia naquele caos movediço em que a morte chega a galope por todos os lados e ao mesmo tempo, onde não há microfone nem púlpito, os primeiros e os últimos.

Há só os mesmos, compadre, só os mesmos desatando, nós, desatando nós.

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